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Turismo científico descaracteriza ritual indígena, afirma pesquisador

Agência Fapeam - 06/01/2010

Projeto realizado por programa da Fapeam evidencia a exploração feita dentro do turismo científico, que tem prejudicado a cultura indígena na Amazônia. Tribos exigem qualificação para participarem das atividades e se preservarem.

A descaracterização de rituais indígenas, a utilização de imagens e vídeos sem autorização prévia, a exploração na compra de artesanato e o acumulo de lixo nas aldeias são alguns dos problemas causados pelo turismo científico em áreas indígenas. As questões foram levantadas durante o projeto “Turismo e Etnoconservação na Bacia do Baixo Rio Negro”. A pesquisa foi coordenada pelo cientista do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Jefferson Cruz. O resultado foi reunido em livreto com as ações que devem ser desenvolvidas em cada comunidade e o potencial turístico.
O projeto foi desenvolvido no âmbito do Programa Amazonas de Apoio à Pesquisa em Políticas Públicas em Áreas Estratégicas (Poppe) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM). Os resultados foram apresentados no seminário “Programa PPOPE e a Sustentabilidade dos Povos Indígenas”. Os pesquisadores analisaram as dificuldades e vantagens de se adotar uma política de turismo em áreas indígenas.
 
Segundo Cruz, o abuso é tão grande que os índios da etnia dessana ficaram chocados quando viram a gravação de um vídeo, que os mostra um dos rituais da etnia. “As imagens foram feitas sem autorização pelo Canal Discovery Channel”, destacou.
 
De acordo com a índia dessana Pyokopiro, que significa sereia, são várias as formas de exploração, por exemplo, pacotes turísticos com preços baixos, alteração de rituais, entre outros. “Tivemos que mudar nosso ritual da Ayahuasca, que dura 24 horas para apenas 30 minutos, para agradar os turistas estrangeiros. Isso é um absurdo. Tiram fotos sem autorização. Quando vemos, estamos na internet”, frisou.
 
Indígenas querem qualificação profissional
 
Durante mais de três anos, foram feitas oito oficinas de turismo nas comunidades indígenas para levantar as necessidades da população. Cruz contou que entre os pedidos estava a implantação de um curso de guia indígena, pois muitos guias não pagavam um preço justo pela visita às aldeias. “Alguns solicitaram a criação de um curso para a revitalização do uso da cerâmica e o resgate da coleta de barro. A tradição está se perdendo na comunidade Três Irmãos porque os mais velhos estão morrendo e os jovens não têm interesse em aprender a tradição”, explicou.
 
De acordo com o cientista, na comunidade de São Thomé os índios pediram para construir uma pousada para que eles pudessem administrar, que fossem ministrados cursos de inglês, espanhol e hotelaria. Cruz explicou que foram várias as ações apontadas pelos indígenas nas oficinas promovidas pelo Poppe que precisam ser implantadas. Ele afirmou que na comunidade sateré-mawé há o desejo de implantar um museu para resgatar a história dos ancestrais por meio dos utensílios usados nos rituais sagrados, na culinária, entre outros. Os objetos seriam mostrados aos turistas que virão ao Amazonas no período da Copa do Mundo de 2014. Além disso, há um projeto de um CD para o resgate de antigas canções da etnia dessana usadas nos rituais.
 
Sobre o Poppe
 
Tem como objetivo apoiar pesquisas que beneficiem a formulação e implementação de produtos, processos e inovações tecnológicas vinculados às Políticas Públicas do Governo do Amazonas. Os projetos são coordenados por pesquisadores vinculados às Instituições de Pesquisa e Ensino Superior (IPES) sediadas no Estado.
 

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