
Assessoria de Comunicação da Fapesc - 07/12/2009
Na semana passada, a ONG Projeto Arqueologia Subaquática (PAS) anunciou a novidade. Diversas partes do barco já foram trazidas à tona pelos mergulhadores.
Era de um pirata inglês o barco afundado no século XVII na Praia dos Ingleses, cujo nome foi dado após o naufrágio. A notícia foi anunciada na semana passada pela ONG Projeto de Arqueologia Subaquática (PAS), à agência responsável pelo financiamento do estudo, a Fundação de Apoio à Pesquisa Científica e Tecnológica do Estado de Santa Catarina (Fapesc).
“Nossa pesquisa é amparada por fontes históricas e evidências arqueológicas, e mostra que o barco naufragado pertenceu a Thomas Frins, integrante de uma frota pirata composta de mais de 900 homens – na maioria ingleses e franceses – que saqueou as colônias espanholas no Pacífico, entre 1684 e 1687”, disse o historiador Amílcar D’Avila de Mello. Depois de se perder da frota e de ser acossado pelos espanhóis, Frins iniciou sua viagem de volta à Inglaterra pelo Atlântico, onde acabou arribando em uma praia ao norte da Vila de Nossa Senhora do Desterro (atual Florianópolis). Lá foi capturado pelo fundador da vila, o ex-bandeirante Francisco Dias Velho.
Partes da embarcação e dos objetos levados a bordo vêm sendo trazidas à tona por mergulhadores da ONG PAS. Mais de 1.500 peças já foram limpas, dessalinizadas e fotografadas. Entre elas há uma mesa de pedra usada para moer grãos originária da América Central, fragmentos de potes de cerâmica da cultura indígena do Pacífico e botijas de vinho em profusão – muitas delas em pedaços que foram remontados por profissionais especializados em restauração.
A escavação está entre as maiores da arqueologia internacional, “apesar das dificuldades”, nas palavras de Amílcar D´Avila de Mello. Mesmo com ondulação forte e má visibilidade debaixo d’água, a equipe conseguiu registrar, por meio de fotos e desenhos, 360 metros quadrados da área escavada, totalizando 400m². Tudo foi feito de acordo com a metodologia da arqueologia subaquática, explica Alexandre Viana, um dos pioneiros da pesquisa (ver texto correlato).
O próximo passo é elucidar mais fatos a respeito do naufrágio, suas causas, o tamanho original da embarcação e a rota percorrida. Os pesquisadores também querem saber se houve combate durante a captura de Frins, pois há ossos humanos nas imediações do barco.
Ainda em andamento, o projeto começou em 2004 e desde então a Fapesc investiu R$2.400.000,00, cujo uso foi justificado por meio de relatórios periódicos e apresentações. Em cinco anos, mais de 20 mil visitas foram feitas ao museu que expõe alguns dos objetos encontrados, entre outros atrativos. Situado no Canto direito da Praia dos Ingleses, anexo à Marina do Costão do Santinho, o museu fica aberto de segunda-feira às 10 às 17hs.
Texto correlato
Os diversos ramos da Arqueologia Subaquática
A arqueologia é uma ciência com objetivos históricos e sócio-antropológicos que investiga o mundo material usado ou produzido por humanos, sem limitações cronológicas. Ela também estuda os aspectos imateriais e as ideologias relativas aos contextos pesquisados.
A arqueologia subaquática é um ramo desta ciência, adaptado à pesquisa em qualquer ambiente aquático. Seu campo de estudo vai muito além da mera coleta e descrição dos diversos tipos de evidências submersas, como embarcações, cidades e outras evidências materiais.
No caso das embarcações européias e brasileiras que jazem no litoral catarinense, é acionado outro ramo: a arqueologia histórica. Ela é definida como o estudo da formação do Mundo Moderno, a partir da expansão européia, coincidindo com a consolidação do sistema capitalista e de uma nova ordem social. Junto com a evidência arqueológica, os documentos escritos são fontes imprescindíveis em todas etapas da pesquisa, devendo ser achados, analisados e interpretados como fazem os historiadores. A diferença está na forma como a informação dos documentos é integrada às descobertas arqueológicas.
A ONG PAS também pratica a arqueologia pública, buscando a interação democrática com a sociedade, tanto para a divulgação e ensino, quanto para a preservação do patrimônio arqueológico. Nesse sentido, ela busca apoio para edificar um museu maior, que abrigue adequadamente o material resgatado.
Em seu site, responsáveis pela ONG afirmam querer construir conhecimento científico e sugerir estratégias públicas para a proteção e gestão do Patrimônio Cultural Subaquático, parte do patrimônio cultural da humanidade. Os estudos não devem servir a objetivos mercantis e colecionistas, como a caça a tesouros e a remoção indiscriminada de evidências materiais. Nem deve ser realizado fora dos padrões teóricos, metodológicos e técnicos. A prática da arqueologia subaquática inclui a abordagem científica voltada à produção e difusão de conhecimento junto ao público.
Diversas publicações científicas resultaram do projeto financiado pela Fapesc e foram encaminhadas ao meio acadêmico. Algumas podem ser conferidas no site da ONG.
