
Domingos Picanço Diniz - 21/12/2009
O Programa de Ações Interdisciplinares (PAI), realizado no Pará, tem como objetivo pesquisar o potencial do rio e suas riquezas mineirais O coordenador do PAI, professor Domingos Picanço Diniz, fala sobre o sucesso do Programa.
Uma experiência de sucesso vem ganhando espaço e se tornando referência na área da iniciação científica no Estado do Pará. Estamos falando do PAI - Programa de Ações Interdisciplinares - coordenado pelo professor Domingos Luiz Wanderley Picanço Diniz, diretor do Núcleo Universitário de Oriximiná e coordenador do Curso de Licenciatura e Bacharelado em Ciências Biológicas.
Na última semana, os resultados do PAI no período 2008-2009 foram expostos na I Feira de Ciência do programa. Durante dois dias (12 e 13 de dezembro) foi possível discutir com a comunidade científica e autoridades do Governo do estado sobre políticas e pesquisas focadas no desenvolvimento ambiental, científico e social da região.
A presença da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Pará (Fapespa), através do presidente da instituição, Ubiratan Holanda Bezerra, e da Secretaria de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia do Estado (Sedect ), representada pelo professor Roberto Bello, abriu novas perspectivas para o diálogo já existente entre pesquisadores e as políticas de ciência e tencologia do governo estadual.
As pesquisas voltadas para o potencial do rio e as riquezas minerais, que já vêm sendo exploradas pela Mineração Rio do Norte, são vocações de Oriximiná, município paraense localizado na região do Médio Amazonas à margem esquerda do rio Trombetas (a 810 km de Belém). Por estar situada em um território de fronteira entre o Brasil e os países da Guiana Francesa e do Suriname, a cidade se destaca como um local “chave” das transações sociais e econômicas da região do Baixo Amazonas.
Vivendo um momento de transição no Núcleo Universitário da UFPA, que passa a ser da recém criada Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), o município também comemora o êxito do PAI e as novas 48 bolsas conquistadas este ano, do PIBIC Jr, edital da Fapespa em parceria com o CNPq, somando agora 354 bolsas contratadas.
Foi sobre estes e outros assuntos, que conversamos com o prof. Domingos Picanço, ainda no domingo, 13, em Oriximiná, antes do encerramento da Feira de Ciência. Na entrevista ele explica como funciona o PAI e porque ele dá certo. O programa foi responsável pela conquistas das bolsas do PIBIC Jr., superando todas as dificuldades que existem com a ausencia de pesquisadores fixados no município para orientação dos alunos bolsistas.
O maior número de bolsas do PIBIC Junior em todo o Estado está em Oriximiná. Como o senhor explica isso diante das dificuldades como o distanciamento geográfico da região, o acesso a internet e, consequentemente, o acesso aos editais da Fapespa?
Na verdade estas bolsas foram conseguidas a partir de um programa já pensado há bastante tempo, e que vem amadurecendo com ajuda de alguns pesquisadores. O PAI foi montado dentro de um projeto do curso de Biologia de Águas Interiores. Eu acho que esse é o grande ganho do programa porque ele existe como uma atividade obrigatória. O aluno de graduação atua como monitor, seguindo os passos do pesquisador na orientação dos Pibic Jrs.
Essa obrigatoriedade é que salva o pesquisador no momento em que ele se compromete com a fundação. Normalmente, o pesquisador não teria tempo para orientar alunos que não tenham nenhuma experiência de laboratórios ou prática de campo, de atividades investigativas, de método científico. Esta é uma grande queixa do pesquisador com relação a bolsa Pibic Jr., pois além da orientação de iniciação científica ele tem outros compromissos, como orientação de Doutorado e de Mestrado, TCC.
Fica complicado para ele assumir mais este compromisso principalmente neste nível de formação, onde o pesquisador teria dificuldades, pela própria característica de seu trabalho, de estar distante desta pedagogia do ensino fundamental e médio. Então, nós temos também esta peculiaridade por conta do apoio de um grupo que faz a interface entre a universidade e a rede pública básica de ensino, que é o grupo de apoio pedagógico implantado aqui pela UFPA, um grupo que entende como funciona a rede municipal de ensino, que traduz esta linguagem para a universidade uma vez que, dentro da universidade, pode-se melhor pensar em como intervir neste ensino básico de forma a plantar a semente da ciência.
O PAI não se restirnge ao programa de iniciação científica PIBIC. O que mais este programa abrange?
Além dessas peculiaridades que já contei existe uma pirâmide acadêmica, que é respeitada dentro do porgrama e onde o pesquisador está no topo. Ao treinar um aluno monitor ou da graduação, ele está habilitando este aluno a repassar os ensinamentos aprendidos e aplicar estes novos conhecimentos no grupo de pesquisa como um todo.
Então o PAI acaba permitindo ao aluno da graduação, praticar sua licenciatura sem precisar estar na sala de aula, como uma espécie de ensino tutorial onde ele tem um universo de troca melhor e muito mais eficiente, com a vantagem de conhecer mais a fundo o aluno com quem ele interage. Dentro desta proposta do porgrama, incluimos ainda a prórpia familília, onde o aluno interage e partilha a vida doméstica, além das associações de bairro.
Esta nova proposta do PAI inclui estas associações como uma forma mais fácil de chegar ao povo e fazer uma extensão universitária muito mais eficiente, pois se você conhece o povo com que trabalha, partilha e troca melhor as informações com as pessoas. Então veja como o programa é versátil.
Como é a organização disso tudo?
Existem tarefas obrigatórias, que são encontros de trabalho, que acontecem semanalmente e isso nem estava previsto no porgrama, mas percebemos que eram necessários, embora eles aconteçam até mais vezes por conta da necessidade dos projetos, cada um com sua especificidade, e os seminários bimestrais, outra tarefa obrigatória dos alunos do grupo de pesquisa.
Os seminários são apresentados nas escolas, onde os professores preparam os alunos para assistirem. São selecionados cerca de 50 alunos positivos que vão para a platéia interessados, e os bolsistas apresentam os seminários, interagindo, trocando idéias, fazendo perguntas e respostas num jogo muito dinâmico, mostrando que aquela coisa que está na teoria da pedagogia pode ser facilmetne aplicável, quando se tem um grupo menor, trabalhando exatamente aquilo que a idade exige, simulando o lúdico, a curiosidade e novos interesses.
Para você ter idéia, nós estamos trabalhando aqui com a cultura como parceiro. A Cultura nos oferece uma série de feramentas belíssimas e pedagógicas para trabalhar com esta faixa etária. Temos teatrinho de fantoches, arte cênica, dramatização e até o cômico, e isso atrai muito as crianças. Elas aprendem muito mais assim do que na sala de aula com um quadro negro onde se pede para os alunos copiarem o que está escrito. Em linhas gerais é assim que funciona o programa.
Vocês trabalham também com arte educadores?
Sim, nós contamos com apoio de artistas da terra, em várias linguagens, como o teatro e com artesãos que ensinam a manipular e criar, desenvolver personagens. Além disso, os alunos da gradução recebem um treinamento dentro do programa pra insturmentalizar estas ferramentas pedagógicas. Eles estão liberados pelo treinamento, para criar. Acho que é outra habilidade que o programa oferece pra deixar tanto os bolsistas quanto os monitores envolvidos.
A liberdade de criar soma-se proximidade de idades e experiências entre as partes. Hoje, o aluno da gradução está muito jovem então ele não está longe da realidade do bolsista infanto juvenil e quando eles se aproximam a troca e a franqueza entre eles acontece de forma expontânea.
Vocês estão em fase de Transição do Núcleo Universitário da UFPA para Universidade Federal do Oeste do Pará. Quais são as expectativas com a implantação da UFOPA?
É tudo ao mesmo tempo agora (risos), uma situação. Nos contatos feitos com o gabinete do novo reitor da UFOPA (Prof. Seixas Lourenço) tivemos uma receptividade muito grande, não só da parte dele, mas da equipe toda também. Nós ouvimos ontem (na mesa redonda realizada durante a I Feira de Ciência do PAI) algumas manifestações positivas.
O que eu posso dizer é que o curso de biologia que é uma obrigatoriedade deste programa já foi aprovado pra concurso de bolsas. O conselho aprovou este curso e aprovando o curso ele aprova também as atividades do programa. Então, uma vantagem é que o pesqusiador não estará mais tão distante do PAI.
A implantação da Ufopa representa a possibilidade de se abrir outros cursos ligados às vocações da região?
O curso de Licenciatura e Bacharelado em Águas Interiores já existe por causa dessa vocação. Temos aqui uma área de lago imensa, há mais água do que terra, e a nossa vocação ela está muito clara, com o extrativismo pesqueiro, cujas as reservas estão fora de controle, com acentuada exaustão. O curso de biologia foi encomendado neste sentido, seja para melhorar a qualidade do alimento que é oferatdo e outras intervenções que podem ser feitas para melhorar este quadro.
O aumento de pesquisadores e doutores em Oriximiná vem contrinbuir também com o PIBIC Junior. Uma coisa se une à outra...
A UFOPA tem como proposta congregar os povos amazônidas, envolvendo outros paises. O município de Oriximiná, para isso, é privilegiado. É fronteira com váirios países e é exatamente a ponta mais desenvolvida da região Oeste, no sentido mais longínquo. E nós temos, por esta habildiade em formar e treinar pessoas, o objetivo principal de criar redes internacionais de pesquisa criando uma relação bastate estreita com estes países.
Neste sentido, o que o senhor acha do envolvimento da Fapespa e Sedect, enquanto governo do Estado?
Nós temos uma ótima relação com a Fapespa, que percebe nossa intenção e, nesta intenção vislumbra nossa seriedade e os nossos compromissos. A Fapespa tem nos facilitado as coisas, no sentido de entrender nossas dificuldades. São muitos alunos, não são poucos. Então, estamos satisfeitos. Existe o compromisso burocrático, mas ele é acessível e isso permite que haja um grau de liberdade nesta relação e confiança maior.
A Fapespa entende que o pesquisador está fora do lugar onde ele orienta, mas que ele tem compormissos e que existe todo um mecanismo por traz, no sentido que aquele aluno não fique abandonado , como acontece em vários lugares do país quando se trata de Pibic Junior.
Os alunos ficam meio que “abandonados” porque o pesquidor não tem tempo hábil para estar próximo e, mais do que isso, os pesquisadores têm visão muito técnica e muito pouco pedagógica em relação à faixa etária que tem que ser trabalhada.
Então a Fapespa tem desempenhado o papel perfeito sendo mais flexível e sensível às nossas dificuldades, e a Sedect também. Ambas possuem este compromisso de nos apoiar e então só temos a agradecer estas iniciativas. Isso é uma inovação, como disse o Prof. Ubiratan Holanda. Uma inovação que tem colocado o Pará numa siutuação de destaque no país, no quesito formação científica.
